Tênis artesanal não é customização. E muita gente ainda confunde os dois.

Se você acompanha tênis personalizados na internet, provavelmente já viu trabalhos impressionantes.
Pinturas feitas à mão.
Bordados.
Aplicações.
Mudanças de textura.
Personagens.
Temas.
Cores que nunca saíram de uma fábrica.
Esse universo é conhecido principalmente como customização.
E existem artistas brasileiros fazendo trabalhos de altíssimo nível dentro dele.
TND Sneakers e Mini Dixon são dois exemplos conhecidos de uma cena que transformou o tênis em suporte para arte, identidade e exclusividade.
Mas existe uma confusão que acontece o tempo todo.
Quando alguém vê um tênis artesanal, muitas vezes chama aquilo de customização também.
Só que existe uma diferença importante.
Na customização, você transforma um tênis que já existe.
No artesanal, você participa da construção dele.
Parece apenas uma diferença de processo.
Mas é justamente essa diferença que muita gente ainda não percebe.
Customização também é arte
Antes de separar os dois universos, é importante deixar isso claro.
Customização não é uma versão menor do artesanal.
São linguagens diferentes.
Artistas conseguem transformar completamente um tênis industrializado usando pintura, bordado, aplicação de materiais, reconstruções parciais e inúmeras outras técnicas.
A TND Sneakers, por exemplo, construiu uma trajetória ligada à arte e à customização de sneakers, criando trabalhos para artistas, atletas e personalidades brasileiras.
Mini Dixon também ocupa esse território como sneaker artist, desenvolvendo peças personalizadas e projetos autorais.
Um bom custom pode ter enorme valor.
Porque o valor não está apenas no objeto que serviu de base.
Existe criação.
Existe técnica.
Existe tempo.
Existe assinatura.
Mas o ponto de partida continua sendo um tênis que já estava construído.
É exatamente aí que o artesanal começa a tomar outro caminho.
Fazer um tênis começa antes
Imagine receber um tênis pronto.
A silhueta já foi decidida.
O solado já está ali.
O forro já foi escolhido.
As espumas já têm determinada espessura.
As peças já possuem formatos definidos.
As costuras já existem.
A estrutura interna já está pronta.
Na customização, o artista trabalha a partir dessas decisões.
Agora imagine começar antes disso.
Molde.
Materiais.
Recortes.
Forro.
Espumas.
Costuras.
Estrutura.
Forma.
Montagem.
Solado.
Acabamento.
De repente, várias decisões que normalmente chegam prontas voltam para as suas mãos.
Isso é fazer tênis artesanal.
O artesanal permite escolher onde colocar qualidade
Existe uma ideia perigosa de que tudo o que é artesanal automaticamente possui mais qualidade.
Não é verdade.
Um trabalho artesanal mal executado pode ser ruim.
Assim como um produto industrial pode ter excelente qualidade.
A diferença está em outra possibilidade:
no artesanal, quem está construindo pode decidir onde colocar qualidade.
Você pode escolher um couro específico.
Um forro mais agradável ao toque.
Uma espuma diferente.
Uma linha mais resistente.
Uma palmilha mais confortável.
Pode dedicar mais atenção a um acabamento interno que quase ninguém verá.
Pode refazer uma peça porque uma costura não ficou como deveria.
Pode gastar mais tempo em um único par porque não existe uma linha de produção esperando que milhares de unidades sejam finalizadas.
Essa liberdade muda a relação com o objeto.
Cor deixa de ser apenas uma opção de catálogo
Quando você compra um sneaker industrializado, normalmente escolhe entre as combinações que alguém decidiu produzir.
Preto.
Branco.
Azul.
Uma edição especial.
Uma collab.
No artesanal, cor é apenas uma das primeiras decisões.
Você pode combinar tons diferentes dentro do mesmo projeto.
Escolher cor da linha.
Forro.
Cadarço.
Entressola.
Detalhes.
Camadas.
Materiais.
E algumas escolhas podem existir apenas naquele par.
Essa liberdade é uma das coisas que mais aproximam o sneaker artesanal de um trabalho autoral.
Textura muda completamente a leitura de um tênis
Retalhos de couros Couros Exóticos de Tilápia Camurças Diversas Cores
Couro liso.
Camurça.
Nobuck.
Tecidos.
Jeans.
Materiais reaproveitados.
Couros com textura.
Materiais exóticos de origem legal.
Cada superfície responde à luz de um jeito.
Cada material se comporta de uma maneira diferente durante a construção.
Quando o maker entende o processo, ele começa a usar isso como linguagem.
O tênis deixa de ser apenas uma combinação de cores.
Passa a ter matéria.
Textura.
Profundidade.
O solado também faz parte da criação
Existe outro detalhe que muita gente não percebe até entrar nesse universo.
O solado muda completamente um projeto.
Um mesmo cabedal pode ganhar uma leitura clássica, esportiva, robusta ou experimental dependendo da base escolhida.
No artesanal, o maker pode trabalhar essa relação entre cabedal e solado desde o início.
Não é apenas colocar uma nova cor sobre um sneaker que já existe.
Você começa a pensar na construção como um conjunto.
É aqui que o processo começa a se aproximar muito mais de design.
Um par pode existir uma única vez
A indústria funciona melhor quando consegue repetir.
Um molde precisa gerar milhares de unidades.
Uma combinação de materiais precisa funcionar em escala.
Um processo precisa ser previsível.
No artesanal, a lógica pode ser exatamente oposta.
Você pode criar um projeto para uma única pessoa.
Um único evento.
Uma única história.
Uma única ideia.
E depois nunca mais repetir.
No universo internacional dos bespoke sneakers, isso aparece constantemente na expressão:
1 of 1.
Um de um.
O valor não está em existir pouco porque a produção acabou.
O valor está em ter sido pensado para existir apenas uma vez.
Lá fora, esse tipo de trabalho já alcança valores altos
Existem ateliers internacionais construindo sneakers artesanais dentro de uma lógica muito próxima da sapataria bespoke tradicional.
A VIJZ Bespokes, na Holanda, trabalha com projetos bespoke construídos artesanalmente e informa valores iniciais na faixa de €2 mil, podendo subir conforme materiais e complexidade.
Existem também ateliers trabalhando com reconstruções completas, materiais escolhidos pelo cliente e projetos extremamente limitados.
Em alguns casos, sneakers bespoke chegam a valores de muitos milhares de euros.
Isso não significa que qualquer tênis feito à mão automaticamente passa a valer isso.
O valor continua dependendo de execução, acabamento, autoria, reputação, projeto e cliente.
Mas demonstra uma coisa importante:
O mercado já aceita pagar muito quando percebe habilidade, exclusividade e identidade.
O Brasil também começa a enxergar esse território
Por aqui, a cultura sneaker cresceu durante anos principalmente em torno de grandes marcas, lançamentos e customização.
Agora outra conversa começa a aparecer.
A própria Golden Goose vem aproximando personalização, experiência e trabalho manual do mercado brasileiro de luxo, com experiências que podem levar sneakers a valores próximos de R$ 13 mil.
Fora do sneaker, sapatarias bespoke brasileiras também trabalham há anos com a ideia de materiais escolhidos pelo cliente, construção artesanal e peças sob medida.
Ou seja, o consumidor brasileiro não é estranho ao valor do artesanal.
Talvez ele apenas ainda não tenha aprendido a enxergar isso dentro de um sneaker.
No TDZ, essa construção já acontece no Brasil
Esse é justamente o território em que Alexander Iesu vem trabalhando.
Artista plástico, Iesu levou sua relação com arte e matéria para a construção de sneakers artesanais.
Em vez de trabalhar apenas sobre um tênis pronto, passou a explorar couro, costura, solado, textura, recortes e construção como partes da própria linguagem artística.
Hoje, sua tabela para projetos especiais autorais começa em R$ 3 mil por par.
O preço não vem simplesmente do custo dos materiais.
Tênis Artesanal com textura trançada feita pela Aluna TDZ Raquel Iesu no atelie lixando o cabedal de uma tênis artesanal Iesu mostrando um tênis exclusivo para festa de 15 anos Iesu finalizando tênis exclusivo para um time de futsal Bancada com materiais para fazer uma modelagem exclusiva Detalhe de costura para um tênis exclusivo
Existe projeto.
Escolha.
Processo.
Tempo.
Execução.
Acabamento.
E principalmente exclusividade.
Mas existe outra parte dessa história.
Iesu não ficou sozinho nesse processo.
Alunos também começam a criar seus próprios pares
Tênis Artesanal de aluno TDZ sendo finalizado Detalhes de um tênis artesanal de aluno TDZ Detalhe de costura de um aluno TDZ Aluno TDZ na mesa com diversos materiais para fazer tênis artesanal Aluna TDZ Raquel com 2 pares de tênis artesanal em acabamento Aluno TDZ Waimer no seu atelie com 2 pares de tênis exclusivos
O Método TDZ nasceu justamente para ensinar pessoas comuns a atravessarem a barreira da construção.
Primeiro vem o processo.
Entender ferramentas.
Materiais.
Corte.
Costura.
Preparação.
Montagem.
Colagem.
Acabamento.
Depois aparece algo muito mais interessante.
A escolha.
Hoje alunos TDZ já constroem pares com materiais, cores e identidades completamente diferentes entre si.
Aluno TDZ Marcio esticando o cabedal na forma Aluno TDZ Will com tênis finalizado Aluno TDZ Marcio com tênis artesanal feito com material indigena Aluno TDZ JJ com vários tênis artesanais no seu atelie Aluno TDZ Clayton no seu atelie e seu tenis artesanal nos pés Aluno TDZ Amaury com seu primeiro par de tenis artesanal
Essa galeria é importante por um motivo.
Ela mostra que aprender um processo não significa produzir tênis iguais.
O método organiza a construção.
A identidade começa a aparecer nas escolhas de cada pessoa.
Não existe uma “cara de TDZ”
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes.
Existe processo TDZ.
Mas não deveria existir um único visual TDZ.
Uma pessoa pode gostar de sneakers clássicos.
Outra pode trabalhar com cores fortes.
Outra pode preferir couro natural.
Outra pode usar jeans.
Materiais exóticos.
Referências de skate.
Moda.
Arte.
Música.
Cultura brasileira.
O processo dá estrutura.
O repertório começa a dar liberdade.
E a prática transforma essa liberdade em linguagem.
Então qual é melhor: customização ou artesanal?
Essa talvez seja a pergunta errada.
Customização é uma linguagem.
Construção artesanal é outra.
Um artista pode inclusive trabalhar com as duas.
A diferença está principalmente no ponto em que cada processo começa.
Na customização, existe um sneaker pronto esperando uma intervenção.
No artesanal, existem materiais esperando virar um sneaker.
É uma diferença pequena quando escrita em uma frase.
Mas enorme quando você coloca as duas coisas sobre uma bancada.
De um lado:
Tênis Branco pronto para customização
um tênis pronto.
Do outro:
Iesu na mesa com couro riscando os moldes Tênis na bancada com algumas ferramentas Iesu com tênis nas mãos fazendo a costura da sola Tênis exclusivo com couro nobre na bancada Iesu sentado na mesa com diversos tênis artesanais
molde.
couro.
forro.
espuma.
linha.
forma.
solado.
E uma pergunta:
O que isso pode virar?
Talvez seja essa a maior liberdade do artesanal.
Você não começa apenas escolhendo como aquele tênis vai parecer.
Você participa de como ele vai existir.
No próximo artigo do Blog TDZ, vamos responder justamente a pergunta que normalmente
surge depois dessa descoberta:
O que você realmente precisa para começar a fazer um tênis artesanal?



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