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Bespoke sneakers: o universo dos tênis feitos à mão que pouca gente conhece no Brasil

1 de set.
5 min de leitura
Tênis exclusivo artesanal na bancado do Iesu

Existe uma diferença enorme entre ter um tênis que pouca gente tem e ter um tênis que simplesmente não existia antes de alguém criá-lo.

A cultura sneaker nos acostumou às edições limitadas.

Collabs.

Drops.

Numerações esgotadas.

Modelos raros.

Tudo isso cria exclusividade.


Mas existe outro universo, muito menos conhecido por aqui.

Um universo em que a exclusividade não começa na quantidade disponível.

Começa na construção.

É o universo dos bespoke sneakers.


Afinal, o que significa bespoke?

Iesu no atelie finalizando um tênis exclusivo camuflado

A palavra bespoke vem de uma tradição muito anterior aos sneakers.

Ela está ligada à alfaiataria e à sapataria artesanal, especialmente à ideia de algo desenvolvido especificamente para um cliente.

Não é simplesmente escolher uma cor dentro de um catálogo.

É uma relação muito mais próxima entre quem cria e quem vai usar.

Quando esse conceito chega ao universo sneaker, ele ganha uma característica interessante.

A linguagem contemporânea do tênis encontra técnicas de construção, trabalho manual, materiais especiais e criação autoral.

O resultado pode ser um par que só existe uma vez.


Um bespoke sneaker não começa necessariamente numa prateleira

Iesu costurando a sola do tênis e mais tênis na bancada de couro de tilapia e pirarucu

Essa talvez seja a diferença mais fácil de perceber.

Em uma customização tradicional, existe um tênis pronto.

O artista recebe esse tênis e interfere nele.

Pode pintar.

Bordar.

Aplicar materiais.

Trocar elementos.

Mudar sua aparência.

Isso pode gerar trabalhos incríveis.

Mas a base já existia.

No bespoke sneaker, dependendo do processo utilizado pelo maker, a criação pode começar muito antes disso.

Molde.

Escolha de materiais.

Recorte das partes.

Preparação do cabedal.

Costura.

Montagem.

Solado.

Acabamento.

Ateliers internacionais especializados já usam justamente essa separação. A VIJZ Bespokes, na Holanda, descreve seus projetos bespoke como sneakers construídos do zero, enquanto chama de custom os trabalhos realizados sobre tênis existentes.

Essa diferença parece técnica.

Na verdade, ela muda completamente o papel de quem está criando.

O sneaker deixa de ser tela e passa a ser matéria-prima

Iesu colando a sola de uma tênis customizado com jeans exclusivo
Alexander Iesu finalizando uma colagem de sola

Na customização, muitas vezes o tênis funciona como uma tela.

No sneaker making artesanal, você passa a trabalhar com os elementos que formam o próprio objeto.

Couro.

Tecido.

Espuma.

Linha.

Entretela.

Forma.

Solado.

Cada decisão altera o resultado.

O material muda a aparência.

A espessura muda o comportamento.

Uma costura muda a leitura visual.

O desenho de uma peça muda a silhueta.

De repente, você não está apenas escolhendo como aquele tênis ficará.

Está participando de como ele vai existir.

E é aí que o tênis começa a se aproximar da arte

Alguns ateliers internacionais definem explicitamente seu trabalho como wearable art, ou arte vestível.

A VIJZ nasceu da cultura sneaker e evoluiu para um atelier dedicado a peças artesanais únicas. A JunAle, no Japão, leva técnicas tradicionais como o sashiko para sneakers bespoke, criando pares em que material, costura, história e identidade fazem parte da obra.

Isso ajuda a entender algo importante.

O valor de um sneaker artesanal não precisa estar apenas no material utilizado.

Existe também o projeto.

A execução.

A quantidade de horas.

A habilidade.

A história.

E principalmente a impossibilidade de encontrar exatamente aquele mesmo par numa prateleira.

“One of one”

Existe uma expressão muito usada nesse universo:

1 of 1.

Um de um.


Significa que aquele projeto existe uma única vez.

A VIJZ, por exemplo, oferece projetos desenvolvidos em torno da história, do tema ou de um momento pessoal de cada cliente.

É uma lógica completamente diferente da indústria.

Na indústria, um bom projeto normalmente precisa ser repetido milhares de vezes.

No artesanal, a possibilidade de não repetir pode ser justamente parte do valor.

É por isso que determinados trabalhos se aproximam muito mais de uma peça de atelier do que de um produto de linha.

Bespoke também não significa uma coisa única

Aqui existe uma nuance importante.

O termo não é usado da mesma maneira por todos os makers.

Alguns constroem o sneaker integralmente a partir de seus componentes.

Outros utilizam solados industriais.

Outros desconstruem um modelo existente para reconstruí-lo com novos materiais.

A Bertier Customs, por exemplo, parte de sneakers originais, desmonta completamente o par e depois corta, prepara e reconstrói suas peças artesanalmente. Segundo o próprio atelier, alguns pares demandam mais de 60 horas de trabalho.

Então o mais interessante não é criar uma polícia do termo.

É perceber o que une esses trabalhos:

pequena escala, alto envolvimento manual, escolha de materiais, autoria e uma relação muito maior entre criador e peça.

Enquanto a indústria busca repetição, o atelier pode buscar diferença

Essa talvez seja a ruptura mais interessante.

Imagine uma fábrica desenvolvendo um tênis.

Existe uma pergunta inevitável:

“Como podemos repetir isso milhares de vezes?”

Agora imagine um artista ou sneaker maker diante da bancada.

A pergunta pode ser completamente diferente:

“E se eu fizer apenas um?”

Um couro diferente.

Uma costura que levaria tempo demais numa linha industrial.

Uma combinação que talvez não tivesse sentido comercial para dez mil pares.

Uma referência pessoal do cliente.

Uma história.

Uma peça de roupa reaproveitada.

Uma textura.

Um desenho.

A lógica muda porque a escala muda.

E quando a escala muda, algumas limitações desaparecem.

O luxo já percebeu esse movimento

A aproximação entre sneaker, artesanal e experiência personalizada também deixou de ser algo restrito a pequenos ateliers.

A Golden Goose, por exemplo, atualmente oferece um serviço chamado Bespoke, apresentado pela própria marca como a possibilidade de criar um produto único partindo do zero. A marca também ampliou sua presença de serviços ligados a personalização, reparo e atividades manuais dentro de suas lojas.

Isso é um sinal interessante.

Durante anos o tênis premium esteve muito ligado à marca que aparecia na lateral.

Agora também existe espaço para falar de experiência, mão, autoria, construção e participação.

Só que existe algo ainda mais interessante para nós

Esse universo não precisa existir apenas em Milão, Londres, Amsterdã, Tóquio ou Los Angeles.

Talvez o Brasil ainda não tenha criado uma linguagem forte para falar sobre ele.

Mas isso não significa que o trabalho não possa existir aqui.

Temos couro.

Têxteis.

Arte.

Design.

Cultura de rua.

Moda.

Artesanato.

Histórias.

E uma criatividade brasileira que dificilmente precisa de apresentação.

Talvez o que esteja faltando seja enxergar o tênis também como suporte para tudo isso.

O primeiro passo não é criar um bespoke sneaker

Iesu no atelie produzindo vários tênis exclusivos com bolas de basquete

É aprender a fazer um tênis.

Essa diferença é importante.

Quando alguém vê trabalhos autorais muito avançados, é comum olhar para o resultado e pensar:

“Eu nunca conseguiria fazer isso.”

Mas aquele resultado não foi o primeiro passo de ninguém.

Antes da liberdade existe repertório.

Antes do repertório existe processo.

Você aprende materiais.

Ferramentas.

Corte.

Costura.

Montagem.

Colagem.

Acabamento.

Começa seguindo uma construção.

Depois entende por que cada etapa existe.

E pouco a pouco aparece uma coisa que não pode ser entregue pronta:

sua própria linguagem.

Essa é uma das possibilidades que existem depois de aprender a construir um tênis.

Foi exatamente essa descoberta que deu origem ao TDZ

O Método TDZ nasceu para ensinar o processo de fazer tênis a pessoas que não vêm necessariamente da indústria calçadista.

O objetivo inicial não é transformar alguém imediatamente em designer ou em mestre artesão.

É fazer a pessoa atravessar a primeira barreira:

Aprender a construir.

Porque depois que você entende processo, ferramentas e materiais, seu olhar muda.

E a partir daí começa outra jornada.

A da criação.

Talvez “bespoke sneakers” ainda soe estranho hoje

E tudo bem.

“Sneaker” também já foi uma palavra estranha para muita gente.

Assim como custom.

Drop.

Collab.

Deadstock.

A cultura cria um vocabulário conforme novas práticas aparecem.

Talvez daqui a alguns anos falar sobre sneaker makers brasileiros e bespoke sneakers feitos no Brasil seja absolutamente normal.

Mas para isso existe uma etapa anterior.

Mais pessoas precisam descobrir que tênis não é algo que obrigatoriamente nasce dentro de uma grande fábrica.

Ele também pode nascer assim:

uma bancada.

algumas ferramentas.

matéria-prima.

duas mãos.

uma ideia.

E conhecimento para transformar tudo isso em um par.

Na próxima matéria do Blog TDZ vamos separar definitivamente dois universos que ainda são confundidos:

Tênis artesanal e tênis customizado não são a mesma coisa.

E entender essa diferença ajuda a perceber o tamanho desse novo território.



 
 
 

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